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Dilema: O Santo Protetor das Histórias

A IMPORTÂNCIA DO DILEMA 

Hoje resolvi conversar com vocês sobre o Santo Protetor das Histórias, que opera os seus milagres sendo um expert em dilemas morais, os quais, por sua vez, são o combustível da história. Evitarei falar SOBRE o que é um dilema moral, se você não sabe, continue a ler, que vai entender logo-logo.

Tudo se resume em como você ou o seu personagem resolveria as questões — dilemas — a seguir?

QUESTÃO 1

No livro A escolha de Sofia, de William Styron, que virou filme estrelado por Meryl Streep, uma prisioneira polonesa em Auschwitz recebe um “presente” dos nazistas: ela pode escolher, entre o filho e a filha, qual será executado e qual deverá ser poupado.

Quem você escolheria salvar? Por ¬quê? Como este é um exercício literário, explique tudo em detalhes. Tente convencer o seu leitor de que a sua decisão é e sempre será a correta! Lembre-se do contexto da época, das circunstâncias em que as pessoas viviam.

DICA!! Hoje temos o Google, que nos leva a dar um “passeio” naquela época. Faça uma pesquisa antes de responder.

QUESTÃO 2

Você é o administrador da rede de uma grande empresa. Tem uma família jovem e precisa do seu trabalho para sustentá-la. Parte de sua responsabilidade, como administrador de rede, é monitorar os e-mails. Isso significa, geralmente, liberar, na caixa de spam, as mensagens que foram para lá acidentalmente. Um dia, você recebe um pedido de um membro da equipe solicitando que um e-mail seja liberado. Normalmente, é um procedimento padrão, exceto que, dessa vez, o pedido vem da esposa de um dos seus melhores amigos. Você reconhece o nome no pedido e rapidamente tenta resolver o problema. Como parte do procedimento, você precisa abrir manual¬mente o e-mail e se certificar de que não é spam. Então, você abre e descobre que se trata de uma mensagem da esposa do seu amigo para o amante dela. Você verifica o restante do e-mail e não há dúvida de que ela estava tendo um caso há algum tempo.

Você libera o e-mail, mas não consegue decidir o que fazer. Sua reação inicial é chamar o seu amigo e contar o que houve. Entretanto, rapidamente se lembra que a política da empresa é muito rigorosa quanto a revelar o conteúdo de mensagens confidenciais dos funcionários, independentemente do contexto. A menos que a vida de alguém esteja em perigo imediato, sob circunstância alguma lhe permitem disseminar a informação. Você sabe que revelar apresenta grande risco, porque, mesmo se não o fizer diretamente, há uma grande chance de os pontos se juntarem até chegar a você. No entanto, não contar ao seu amigo faria com que sua esposa continuasse a trair o marido. O que você faria?

QUESTÃO 3

Um bonde está fora de controle em uma estrada. Em seu caminho, cinco pessoas amarradas na pista por um filósofo malvado. Felizmente, é possível apertar um botão que mudará o curso do bonde, mas ali, por desgraça, outra pessoa encontra-se também atada. O condutor deveria apertar o botão?

A maioria costuma achar que, neste caso, sim. Sentem que não é só uma ação permitida, mas também a melhor escolha moral. A outra opção seria não fazer absolutamente nada. É claro que um cálculo utilitarista justifica esta decisão, embora os não utilitaristas também se mostrem, muitas vezes, a favor dela. E você? O que faria?

O combustível das histórias

Então, você foi capaz de discorrer sobre os dilemas morais? Todo livro, por mais banal que seja, tem de levantar um dilema moral e tentar resolvê-lo. Posso não concordar com o que o autor postula, mas sempre valerá a pena ler, pois, pelo menos, me fará refletir. Sem conflito, isto é, sem dilema moral, não há história, só um relatinho bobo que não prenderá a atenção de ninguém.

Será que os dilemas morais proporcionam uma maneira de escolher teorias morais rivais? Duas das teorias morais mais importantes parecem ser testadas: o utilitarismo e o absolutismo moral.

Quando falo de “absolutistas morais”, refiro-me àqueles que defendem que há pelo menos uma regra moral simples e que não admite exceções, como “é sempre errado matar pessoas inocentes/quebrar promessas/dizer mentiras, etc.” Os utilitaristas rejeitam regras como estas, defendendo que pode haver circunstâncias em que infringir a regra é a única maneira de minimizar as más conse¬quências, isto é, de evitar um mal maior.

Num dilema muito discutido, um agente moral, A, encontra-se numa situação em que, se matar uma entre vinte pessoas inocentes prestes a ser executadas, fará com que as dezenove restantes sejam libertadas. Por outro lado, se A se recusar a fazer isso, o seu captor matará as vinte pessoas. Chamo a isto dilema de Williams, pois Bernard Williams elabora-o e discute-o em Utilitarianism: for and against.

Agora sim!

Vamos analisar os ingredientes da receita do Santo Protetor das Histórias de Sucesso, que já podem se listados aqui! Entretanto, antes de ler as dicas, observe o glossário a seguir, para que fique claro que eu e você falamos a mesma língua:

  • Lacuna emocional: esferas de nosso emocional em que o desenvolvimento do ser integral não foi tranquilo, por motivos como traumas, abusos e travas culturais, perpetuando, assim, proteções nocivas em nosso subconsciente, da infância ou adolescência até a idade adulta. Essas lacunas não permitem que nos entreguemos totalmente nos relacionamentos em geral e nas relações sexuais, levando nosso ego a se prender ao que conhece, impedindo novos aprendizados no campo da sexualidade e da vida.
  • Dilema moral: circunstância particular em que qualquer decisão possa evitar um mal capaz de causar outros problemas. Ou, quando se fala em estrutura e história, uma situação em que todas as alternativas são moralmente erradas.
  • Conflito: em estrutura de história, a necessidade de escolha entre contextos que podem ser considerados incompatíveis. Todas as situações de conflito são antagônicas e perturbam a ação ou a tomada de decisão por parte do personagem ou de conjuntos de personagens.
  • Êxtase: quando se fala de estrutura de histórias, significa arrebatar-se, desprender-se subitamente, sair de si, elevar-se. O estado de êxtase é comparado aos estados hipnóticos e de sono. A audiência fica momentaneamente atônita.

Estabelecido esse acordo entre autor e leitor, vamos às dicas básicas de como criar uma boa história para que a audiência REAJA a ela. Ou seja, goste ou não goste, não ficará indiferente:

1. Criar uma lacuna emocional por meio de um dilema moral e um conflito.

2. Deixar a audiência implorar por informação para preencher a lacuna.

3. Proporcionar a informação à audiência, passo a passo, criando uma nova lacuna emocional ainda maior, oferecendo mais conflito, para deixar o dilema moral mais complicado.

4. Repetir este ciclo várias vezes, se necessário, até a audiência pagar qualquer preço para que se revele a informação derradeira, que a alivie e lhe proporcione o êxtase.

5. E aí parecer revelar, mas, na verdade, criar uma lacuna ainda maior, derradeira, para a audiência exigir, gritar, chorar, descabelar-se para ter acesso às informações que fecharão a trama e resolverão o dilema moral estabelecido no início da história.

6. Então revelar à audiência as peças que faltavam, deixando que ela reaja por um tempo curtíssimo e, enfim, completar a história.

A audiência tem de escapar ou ser empurrada para fora da história ainda com a alma doendo, com as marcas do êxtase e a sensação de que pagou um preço físico e emocional altíssimo para vivenciar a trama até o fim, porém sentindo que saiu vitoriosa, satisfeita, quiçá implorando por mais!

*

(artigo baseado no livro 5 Lições de Storytelling: o best-seller, James McSill, Editora DVS, 2017)

Conheça mais sobre James McSill

Post originalmente postado no LinkedIn de James McSill

James McSill
James McSill
james@mcsill.com

Um dos consultores de histórias mais bem-sucedidos do mundo, autor, conferencista e filantropo.

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