SEM CONFLITO NÃO HÁ HISTÓRIA

SEM CONFLITO NÃO HÁ HISTÓRIA

No que denominamos ‘vida real’— e escolhi chamar de ‘neste Universo’—, o conflito é algo que geralmente queremos evitar. Já no mundo das histórias, por outro lado, o conflito é essencial. Sem conflito não há história — não há ‘narrativa’, que é a materialização da história, com o ela chega até nós. Essa discrepância revela um indicador do objetivo primordial subjacente às histórias: que elas são como uma espécie de campo de treinamento, um local em que aprendemos a lidar com conflitos sem sofrer consequências ‘neste Universo’, ou seja, na ‘vida real’.

(Uso ‘neste Universo’ porque, ao criarmos uma história, com ela, geramos um ‘universo paralelo’ e dentro deste novo universo, o que lá acontece é totalmente REAL para eles, ou não teríamos ‘história’ manifestas em narrativas instigantes.)

história sem conflito
A história se torna real em seu universo

Pois bem, juntamente com a linguagem — texto ou a linguagem de um meio, como o filme, o videogame, o palco — e o significado pretendido pelo autor ou entendido pela audiência, os personagens e o enredo formam as duas partes constituintes da história: criador/emissor e receptor/recriador. É impossível criar uma história que não inclua esses quatro componentes – mesmo que os personagens sejam unidimensionais e o enredo não tenha muita estrutura, como os textos formuláicos usados na maioria dos textos publicitários (copy). E impossível, também, compor uma história sem conflito, em que não haja o personagem ‘sofrendo’ ao longo do desenrolar da narrativa.

Em resumo: todo o poder da história reside no CONFLITO.

Mas, você sabe, exatamente o que essa palavra significa no campo do Storytelling?

Deixe-me ajudar, caso não esteja certo.

Em termos narrativos, o conflito é apresentado como uma série de confrontos de intensidade crescente. Se não houver confrontos — sem batalhas de inteligência ou punhos, sem cruzar espadas ou brigar com palavras —, haverá pouco para prender a atenção da audiência (leitor, cliente, espectador, plateia).

Para criar confrontos, deve haver pelo menos um conflito de interesses entre os personagens, entre um personagem e o ambiente, entre um personagem como ele é hoje e quer ser amanhã.

A Marieta quer ir ao teatro para encontrar o seu amante secreto, embora a peça seja uma chatice, ao passo o marido, sem saber a razão verdadeira, insiste em levar a Marieta ao cinema, pois o filem é do gênero de que ela sempre gostou e, justo esse filme, ganhou seis Óscares. Ou, a Marieta, mãe solteira que reside numa zona de alta criminalidade, perdeu-se na floresta. Está a escurecer e ela tem uma hora para chegar a casa, antes que o seu filho retorne do treino de futebol e encontre a casa fechada, pois ele nunca leva a chave. Ou, a Marieta deu-se conta que como está não poderá ficar, descobriu um guru que lhe aponta o caminho da felicidade e parte em busca deste efêmero sentimento, enfrentando deus e o diabo para lá chegar.

O conflito não ocorre em pontos específicos da história. Ele permeia tudo, a história toda. Digamos que a história precisa estar contida dentro de um conflito (situação conflitante) como a água precisa estar no copo, no lago, no rio, na gota ou no oceano para que a percebamos.

Conflitos permeiam toda a história

Uma segunda analogia

Outra analogia que ouvi numa palestra de um amigo americano, o Richard Krevolin: se considerarmos o enredo como o esqueleto de uma história, os personagens são os músculos. Esses mexem os ossos, fazem a história andar, desenvolver-se. Para completar a analogia, o significado desta luta enquanto o personagem experimenta esse enredo, deve ser os órgãos e a carne, e a linguagem – que é o que percebemos mais fortemente, já que é mais diretamente visível (audível) – é a pele, o cabelo e as características físicas. Todos esses elementos em conjunto formam um todo, o corpo, isto é, formam a experiência que temos ao nos depararmos com uma boa e eficaz história. Adicione-se a isso uma centelha de magia, uma pitada de inspiração, e materializar-se-ão, à sua frente, a alma e a mente de um ‘novo universo’, dando vida, transportando-o ao mundo encantador de uma história.

Contar uma história

Exemplo de um conflito em uma história

Entendo que pode parecer bastante abstrato. Mas aqui vai um exemplo de um conflito, em uma história que circula na internet, que flui entre e dentro dos personagens — examine o impacto que ele terá ‘dentro’ de você:

Em uma de suas reuniões, Stalin pediu que lhe trouxessem uma galinha.

Agarrou-a forte com uma das mãos enquanto a depenava com a outra.

A galinha, desesperada pela dor, quis fugir, mas não pôde.

Assim, Stalin tirou todas suas penas, dizendo aos seus colaboradores:

— Agora, observem o que vai acontecer.

Stalin soltou a galinha no chão e afastou-se um pouco dela.

Pegou um punhado de grãos de trigo, começou a caminhar pela sala e a atirar os grãos de trigo ao chão, enquanto seus colaboradores viam, assombrados, como a galinha, assustada, dolorida e sangrando, corria atrás de Stalin e tentava agarrar algumas migalhas, dando voltas pela sala.

A galinha o seguia fielmente por todos os lados.

Então, Stalin virou-se para os seus ajudantes.

—Assim, facilmente, se governa os estúpidos — disse. — Viram como a galinha me seguiu, apesar da dor que lhe causei? Tirei-lhe tudo…, as penas e a dignidade, mas, ainda assim ela me segue em busca de farelos. Assim é a maioria das pessoas— continuou, segurando outra vez a galinha, quebrando-lhe as patas e jogando-a na cesta de lixo —, elas seguem os seus governantes e políticos, apesar da dor que estes lhes causam e, mesmo lhe tirando tudo o que têm, pelo simples gesto de receber um benefício barato ou algo para se alimentar por um ou dois dias, o povo segue aquele que lhe dá as migalhas.

O papel do conflito

Como nas histórias o conflito torna-se tão predominante, é natural que nos perguntemos por que a violência (a dor) parece desempenhar um papel tão importante, por que o guerreiro ou o vilão sanguinário são arquétipos tão comuns. O mundo das histórias é, em geral, um lugar muito mais perigoso e violento do que o ‘mundo real’, mesmo para quem habita partes deste planeta onde impera violência de todo o tipo.

No entanto, quando lemos ou assistimos a um confronto no ‘universo das histórias’, o que sustenta o nosso interesse não é a ação — como pensa o criador amador —, mas as razões por trás dela. Nós, como leitores, público ou cliente, desejamos entender o que está levando os personagens a lutarem, bem como a conhecer as suas motivações. Provavelmente queremos que uma das partes prevaleça sobre a outra. Isto ocorre porque o nosso cérebro é feito para captar e entender o conflito de interesses subjacente à situação mostrada na história, onde o embate acontece porque personagens com razões e motivações conflitantes querem atingir objetivos opostos, ou, porque não, querem a mesma coisa, mas por motivos distintos.

Em absoluto proponho que os conflitos nas histórias que você venha a produzir sejam necessariamente físicos. A base do conflito é o contraste, não uma briga, uma rinha. Ao criar um ‘elenco’ de personagens contrastantes, estarão criadas as pré-condições para o conflito. Se um dos personagens é cabeça-quente e temperamental e outro é cauteloso e diplomático, o contraste entre eles levará ao conflito quando eles começarem a perseguir o mesmo objetivo.

Enfim…

Escrevendo sua história

Para você, que usa alguma técnica de construção de histórias para persuadir ou vender, precisaria também de injetar conflito nas histórias?

Sem dúvida. O conflito é o cerne em qualquer história, seja ela fantasia ou aventura, que serviriam para encantar, bem como nas grandes histórias, forjadas com o intuito de levar a cabo projetos empresarias, políticos ou educacionais. O conflito sempre estará presente, pois representa a nossa própria batalha interna, que na história é revivida pelo personagem, com os seus próprios demônios pessoais, ou que lhe impõem, e que ele poderá, ou não, superar.

James McSill
James McSill
james@mcsill.com

Um dos consultores de histórias mais bem-sucedidos do mundo, autor, conferencista e filantropo.

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