James McSill

5 Lições de Storytelling: o Best-seller – Entrevista com James McSill

Repórter Rachel Smith entrevista James McSill

Repórter: Você está lançando mais um livro…

James McSill: Sim. O segundo volume da série 5 Lições de Storytelling. Este vai se chamar ‘5 Lições de Storytelling: o best-seller’.

R: Por que ‘o best-seller’?

JM: Na verdade o livro é uma longa conversa mesclada com pausas instrucionais sobre o assunto ‘best-seller’. Este é um assunto de que muito se fala, muita gente promete milagres, muitos juram ter uma fórmula, mas o fato é que a ‘verdade’ sobre o assunto raramente é mencionada. Na minha conversa, que gerou o livro, você poderá ler parte da experiência que acumulei em décadas de carreira e mais voltas ao mundo de que consigo lembrar.

R: Li que você dá umas 16 voltas ao mundo num ano.

JM: Alguns mais, outros menos. Mas se penso fico tonto!

R: Tive a oportunidade de ler o texto antes da publicação, notei que há uma fila de celebridades elogiando o seu trabalho e o seu livro…

JM: Que bom. Fico lisonjeado. Mas quero dizer que há uma porção de amigos, bem-sucedidos nas suas carreiras, a falar sobre o meu trabalho. Celebridade é uma bobagem.

R: Quando fui ao seu Facebook para preparar as perguntas, vejo você sempre em companhia de dezenas de celebridades. Você nega isto?

JM: O que quero dizer é que você me vê em companhia de muitos dos meus amigos, outras vezes clientes, outras, conhecidos. Como a mídia os classifica, muitas vezes nem sei. Honestamente, amigo é amigo e fico feliz com a visibilidade deles se isto os ajuda nas suas respectivas carreiras.

R: Você, na sua carreira, gosta de aparecer?

JM: Na carreira, sim. Pessoalmente, acredito que quem não é visto não é lembrado. É um dito antigo, mas bem verdade, em especial hoje em dia. Por outro lado, desprezo um pouco a propaganda formal e os discursos que muitas vezes vejo online, que beiram ao engodo ou ao imoral. O que faço é conversar com as pessoas. Evito, por exemplo, os truques norte-americanos de vendas. Se um evento meu é grátis e grátis mesmo – não espere que eu vá vender alguma coisa no final. É uma questão de honestidade, não preciso, por ora, me aviltar para ganhar a vida. Entretanto, deixe-me dizer, que não tenho nada contra a quem recorre a anúncios formais, ministrar cursos gratuitos para tornar-se conhecido e por aí vai. Hoje tem que se recorrer a tudo isto ou não se decola. Eu é que sou meio que um dinossauro de outra época, em que as pessoas vinham a nós pela competência apenas. De certa forma, para projetos realmente importantes, recebo sempre convites, espero eu, com base na minha competência e histórico. Tenho a vantagem de ter começado quando essas coisas de alguém vir a você pelo que «acham» que você vai fazer por causa da propaganda e marketing ainda não existia.

R: Então, aparecer é bom?

JM: É. Pelo menos não tenho problemas, se for para divulgar o meu trabalho.

R: Perdão pela honestidade, mas você não me convence quando diz que se distancia do marketing ou até mesmo propaganda. Já vi você em ação, você é uma craque na autopromoção. Eu não gostaria de ser o seu concorrente.

JM: Talvez o que você queira dizer é que percebe o quanto utilizo técnicas de Storytelling a meu favor. Isto é verdade. Esta é a minha profissão. Se honestamente creio no poder transformacional do meu trabalho, não tenho problemas em contar essas histórias. Quanto à concorrência, tenho uma maneira bastante única de ver e sentir o mercado. Acredito que concorrência na sua etimologia original de correr juntos. E correr juntos não significa uma maratona, em que alguém tem que chegar primeiro. Correr juntos, para mim, é como quando corro junto a um amigo num parque, ou estamos juntos para ir papeando, nos divertindo, enquanto corremos, ou para termos a segurança de que na companhia uma do outro haverá menos possibilidades de assaltos – dependendo do país em que o parque se localizar. Acho um desperdício de energia emocional entrar no jogo dos ianques que temos de chegar primeiro, ganhar rios dinheiro e tomar conta de um mercado para nós, em que outros acabam sendo apenas nossos empregados. Para mim, quem está na área das histórias é sempre um amigo em potencial.

R: Você não é fácil. Essa explanação do correr juntos é realmente o que vejo você fazer. Você nunca fala mal de um outro profissional, mas já ouvi críticas a você. Como você ignora as críticas, as críticas enfraquecem e os seus concorrentes ficam diminuídos. Ou seja, você, sem dúvida, corre junto, mas a sua luz sempre brilha mais forte, mais firme.

JM: Isto é questão de opinião…

R: Você acha que brilha mais que os que correm com você?

JM: Olha, aprendi que na vida, há os que acham que você brilha mais, os que acham que brilha menos, bem como os que acham que você tem o peido mais fedorento do mundo e, por cima, não brilha nada. A minha avó me dizia que na vida usávamos roupas feitas de espelhinhos, claro que todos nós temos um certo brilho próprio, porém, o brilho com que os outros nos percebem tem muito a ver com o reflexo da luz nas nossas lantejoulas espelhadas, os espelhinhos. Procuro sempre ter comigo pessoas brilho próprio, muita luz. Elas brilham, eu reflito um pouco da luz delas. Quando penso em mim próprio, acho-me até bastante apagado. Sou tímido e, acredita-me, não sou o ser mais sociável deste planeta. O meu mérito é que, por meio do meu trabalho, acabo encontrando gente maravilhosa e também uma maneira de poder expressar a mim mesmo.

R: …você é um monstro de competência. Não podemos esquecer disto. Neste seu novo livro os elogios são de gente muito famosa dos dois lados do Atlântico, bem mais que os elogios aos seus outros livros.

JM: Até competência é um conceito subjetivo. Felizmente, estatisticamente, na minha área de trabalho, mantenho-me, até onde posso, bem atualizado. Mas todo profissional decente tem que estar atualizado, não é mesmo? Quanto aos elogios, só tenho que agradecer aos amigos. São aquelas pessoas que me conhecem como profissional e como ser humano. Para mim foi e sempre será um privilégio colaborar, por pouco que seja, com o trabalho e carreira deles, contribuindo com o meu conhecimento de como funcionam as histórias.

R: Fácil dizer. Você se atualiza trabalhando mundo afora, a sua concorrência, porém, acaba sendo sempre regional, esta é a impressão que passa. Quem realmente concorre com você?

JM: Bom, aí não tenho nem culpa nem controle. Não acordo pela manhã buscando quem faz que tipo de trabalho e confesso que o meu estúdio, nem eu como pessoa física, gastamos um tostão analisando concorrência ou mesmo mercado. Até o presente momento, gatamos os nossos recursos em atender os clientes que chegam a nós. Quanto a ficar por dentro da últimas e conseguir aplicar dinamicamente o que se descobre a cada dia na área do Storytelling fica a cargo de cada profissional. Cada um atualiza-se onde e como pode. No Google, por exemplo, dá para nos atualizarmos de graça…

R: Você tem a experiência da vivência…

JM: Tenho. E já tenho uma certa idade! (risos) Mas cada um de nós tem a sua própria vivência, não há como julgar que a minha vivência seja melhor ou pior do que a de outro profissional. Aliás, melhor do que de qualquer outra pessoa. Vivência é uma coisa única, cada um tem a sua.

R: Verifiquei que, só nos últimos dois anos, dá você em Boston e Flórida nos EUA, Inglaterra, Escócia, Portugal, Japão, México, por todo lado no Brasil e, ultimamente, em Nairóbi, na África… Vi fotos em Barcelona, Malta, Marselha e por aí segue.

JM: É o meu trabalho.

R: fazendo o quê?

JM: Boston, Storytelling corporativo, isto é, treinamento empresariais. As empresas começaram a ser dar conta da seriedade do assunto, a fugir da palestrinha básica e querer desenvolver os seus executivos para se transforem em hábeis ‘storytellers’, a minha experiência internacional tem contado muito, a maioria das empresas querem ou precisam contar histórias transnacionais, neste quesito, embora eles tenham pessoas fantásticas que fazem um belo trabalho internacional, são sempre centrados nas «técnicas ianques» — e sempre em inglês–, o que já nem mais nos EUA funcionam. Aqui a minha habilidade em falar várias línguas e viver ‘de verdade’ em várias culturas é uma mais-valia, algo único. Em outros lugares tem mais haver com literatura. Já na Inglaterra é o lado acadêmico, com o passar dos anos e vários livros escritos sobre o assunto, isto chama a atenção. Portugal, Japão e México vai do Storytelling pessoal ao corporativo, no Brasil vai a gama toda e, com a economia um pouco melhor, os projetos na área do entretenimento aumentam, para 2018 há planos para cinema, documentários, teatro e, claro, sem esquecer o lado editorial, que começou a aquecer outra vez. Na África é uma telenovela, e por aí segue. Tudo são histórias, tudo se entrelaça.

R: Verdade. E você parece circular bem neste campo das histórias, como você diz.

JM: Suponho que sim. Repito: é o meu trabalho, sem ser piegas, encaro isto como uma missão. Basta ir ao Google ou ao meu Facebook e verificar as minhas aventuras.

R: Sei. Isto de missão, admito, a gente percebe. Acompanho o seu trabalho. Na África, entretanto, é algo curioso…

JM: Uma produtora alemã, por indicação de uma amiga, que é uma diretora de telenovelas numa emissora brasileira, convidou-me para ser coach de autores de uma telenovela. Escrever uma telenovela é um trabalho hercúleo, mas a vida é assim, cheia de desafios.

R: Você vai do livro à telenovela à empresa sem problemas?

JM: Tudo são histórias, é o que eu disse há pouco!

R: E pelo seu Facebook você vai do teatro ao cinema também.

JM: … e das histórias corporativas. Suponho que fui diversificando, mas na minha cabeça história é história, tento lidar o melhor possível com cada meio e com as convenções de cada meio. Um romance romântico tem muito a ver com a telenovela, ao passo que uma história pessoal como manipulada por um xamã ou sacerdote tem muito a ver com histórias corporativas.

R: Daria para explicar melhor?

JM: Leia os meus livros. Lá está tudo explicandinho. Em resumo, o mundo é repleto de história.

R: Mas retomando o ponto em que menciono a sua competência, li e vi muita entrevista sua em que você sempre se põe como modesto. Não seria uma falsa modéstia?

JM: Como o mundo percebe o meu trabalho e como eu percebo o meu trabalho são coisas muito diferentes. Neil Gaiman numa palestra disse algo muito interessante, que até hoje parece que alguém vai bater na porta dele no meio da noite e vai leva-lo preso por ele ser um impostor. Ou seja, como a gente percebe Neil não é exatamente como Neil percebe a si mesmo. Entendo bem esta forma de pensar; você pode assistir dez eventos meus no mesmo mês, sobre o mesmo tema, eu nunca me repito. Procuro ter sempre algo novo. Evito ao máximo o script, não considero o meu trabalho completo enquanto não sinto que quem me ouve aprendeu alguma coisa. O meu trabalho é ensinar, não vomitar um showzinho pré-preparado. A medida em que as pessoas ganham mais confiança no que tenho para ensinar, prefiro, como muito já faço, não usar nem slides como muletas. Mas há ainda quem goste de um trechinho de um filme americano…

R: E não é bom ilustrar?

JM: Depende. Se eu estiver ensinando a escrever uma cena parte de um roteiro, claro que o exemplo é válido. Agora, ficar discorrendo sobre a Jornada do Herói e ficar mostrando Star Wars para executivos que terão que usar princípios de história para comunicar algo de forma mais palatável, acho uma perda de tempo e de dinheiro… do cliente. Tudo tem a sua hora e lugar. Daí eu evitar me repetir. Quando me deparo com quem faz tudo igualzinho, penso que poderiam fazer um filminho e vender como produto digital.

R: Grandes palestrantes fazem a mesma coisa, olha o Tony Robins.

JM: Ele é palestrante motivacional, não ensina storytelling. São coisas diferentes. Ir vê-lo é como ir a uma peça de teatro. Infelizmente, comigo, é como assistir aula. Aliás, é! É participar em uma aula, trabalho num ambiente de ensino. Caminhar sobre brasas não vai fazer a sua história ser melhor ou pior, mas poderá fazer você mais determinado a escrever. Quem vem a mim já está motivado. O meu papel é desenvolver o talento e mostrar caminhos. Quando vem a mim um escritor ou um roteirista e diz que está desmotivado, primeiro digo que identifique e supere as suas limitações.  Segundo, deixo claro que nas artes, principalmente as comerciais, há barreiras que são intransponíveis, como a falta de talento ou, na verdade, não ter uma boa história para contar, ou não ter uma infraestrutura ou os contatos para realizar o projeto. Peça, por exemplo, se os atores e diretores não forem bem estabelecidos no mercado e não houver patrocínio não vai passar de uma peça amadora, o mesmo vale para o cinema. Na literatura e TV o caminho é muito mais longo e tortuoso. Entretanto, sempre aconselho que acredite naquilo que escreve e escreva aquilo em que acredita. Esta frase é meio um cliché ianque, mas vale.

R: Você tem um jeito de colocar as coisas que parece amarrar as verdades cruéis a um humor cáustico. Para mim isto é um tanto incomum, confesso que já me senti desconfortável com você.

JM: Depois passou?

R: Passou, claro.

JM: Então… você tem que lembrar que embora eu fale português a minha vida quase toda teve a influência inglesa e, imensamente, escocesa. O meu humor negro inglês se dilui um pouco coma minha latinidade; o escocês, porém, que é mais natural para mim, acaba sendo ‘traduzido’ para o português, tenho menos controle. Eu diria que tenho atitudes escocesas, mas só noto isto em retrospectiva.

R: Dê um exemplo.

JM: No Brasil é normal dizer ‘vai com Deus’, mas quando ouço essa expressão tenho que me controlar para não dizer que preferia ir com o Papai Noel, que acho menos prescritivo ou violento e em cujo nome jamais alguém foi morto ou torturado. No geral, me controlo, outras vezes, digo. Se me dou conta já peço desculpas, afinal, a pessoa diz isto em português como um ato de carinho; o meu lado escocês é que fica ofendido. Creio que na Escócia ‘Oh, God!’ seja dito quando se diz ‘que coisa’ ou ‘ora bolas’. ‘Oh, God’ ou ‘Jesus’ são coisas que se dizia na hora do sexo, mas hoje é considerado mau gosto. Dizer ‘vai com Deus’, may God be with you, pareceria um padre falando. Contudo, os meus amigos mulçumanos ainda usam muito o nome de Deus ou Alá no meio da conversa.

R: Curiosidade. O que dizem durante o sexo?

JM: Este é o assunto desta entrevista? Não tenho problemas em dar detalhes…

R: Acho melhor ir para a próxima pergunta: Quantas línguas você fala?

JM: Trabalho normalmente em Português, Inglês e Espanhol. Mas já trabalhei em Francês.

R: Vi você no Youtube falando japonês.

JM: Eu me viro em outras línguas. Aprendo com facilidade. Em uma semana no Quênia e eu já estava dizendo coisas em Suaíli, o mesmo acontece no Japão. Quando a língua é europeia é uma questão de minutos e começo a fazer sentido na leitura. Adoro conversar com as pessoas nas suas próprias línguas.

R: Você acha que falar línguas ajuda você na sua profissão?

JM: Muito. Posso ler um artigo em inglês, por exemplo, e imediatamente aplicar as minúcias em espanhol ou português. Mais, tenho acesso direto à educação em inglês que não teria em português. Dando mais um exemplo: quando comecei a me dar conta de que cinema e TV poderia ser um caminho novo para mim, imediatamente fiz uma pós-graduação, daquelas tipo ‘sanduíche’, numa universidade inglesa para melhorar o meu conhecimento. Sem o conhecimento da língua não de deixariam fazer o curso, e mesmo que deixassem, eu pouco aproveitaria. O saber línguas nos abre muitas portas.

R: Trocando agora um pouco de assunto: por que você separa tanto a sua vida privada da profissional? O que você tem a esconder?

JM: A esconder? Talvez nada! A revelar é que é o caso. Não tenho muita coisa a revelar que vá mudar o mundo. Sou muito certinho na vida pessoal, muito careta. Isto que sou a geração dos anos 60!  Nunca fumei, nunca usei drogas, raramente bebo um vinho sequer. Nunca tive problemas coma polícia, fui sempre bom aluno, creio que fui um bom filho. Mas os meus bons amigos e família partilham do que seja a minha vida privada, e ponho com poucas fotos desta vida privado no Facebook, devo dizer. O caso do revelar, do expor, é que envolve outras pessoas. Eu escolhi ter uma vida pública, as pessoas que me rodeiam, muitas delas, decidiram pelo contrário. E mesmo os meus amigos que têm uma vida mais pública do que eu, é questão deles…

R: Conta apenas UMA coisa que os seus amigos presenciaram e que o mundo geralmente não vê.

JM: Os meus amigos me veem trocar de língua…

R: Chorar?

JM: Não dado a choros. Mas alguns amigos já me viram chorar, claro. Muitas vezes fui às lágrimas quando falo sobre Portugal, sobre a minha avó, sobre a Escócia, sobre a independência pela qual a Escócia luta há trezentos anos…

R: Vi você ficar às lágrimas, como você diz, quando falava do Projeto Genoma. Que projeto foi esse?

JM: Foi uma coleção de livros infantis. É um projeto direcionado a crianças de até nove anos, com historinhas que vão do medo à esperança, escritas por artistas brasileiros do teatro, artes, cinema e televisão. Durante a jornada que foi da escrita à publicação o grupo ficou muito coeso, fizemos amizade. Fiquei muito feliz em vê-los todos publicados.

R: Nas notas que saíram na imprensa há gente muito famosa neste projeto. Havia Letícia Spiller, Fabíula Nascimento, Bruno Garcia, Simone Spoladore…

JM: Foram, ou melhor, são catorze no grupo, e eu. Este grupo surgiu graças à minha amiga Maureen Miranda, que é ilustradora e também atriz.

R: Atores escrevem bem?

JM: Se ator escreve bem no geral, não sei. Teria de fazer uma pesquisa. Mas os que participaram do Projeto Genoma escreveram muito bem. As histórias são lindas e profundas. Eu não poderia imaginar histórias mais lindas. Fiquei radiante e emocionado, sim, às lágrimas, quando os vi na TV, por exemplo, falando do projeto. Eles são o máximo. Este livro que estou publicando agora há uma dedicatória a eles. Quero eternizar o amor.

R: É notável como você consegue virar o holofote para iluminar o outro e sair iluminado sem, aparentemente, fazer nada. Você não poderia ter ido a TV com eles em vez de ficar assistindo de fora?

JM: Provavelmente, sim. Mas a coleção e o mérito são deles. Eles são os especialistas em aparecer frente às câmeras de TV, não eu. O mérito de a coleção ser tão linda é deles.

R: Viver dizendo que o mérito é do outro não seria falsa modéstia?

JM: Se o mérito for do outro mesmo, não.

R: Para terminarmos, mais uma pergunta e um bate-bola. Você sempre diz que leva uma vida modesta, mas, pelo que apurei, você tem, pelo menos, quatro endereços residenciais. Além disso, vejo fotos suas em salas Vips de aeroporto ou fotos dentro do avião, viajando de primeira classe. Haja vida modesta!

JM: Na verdade, todos os meus endereços são muito modestos mesmo. A minha casa na Inglaterra é uma casa classe média, mas os apartamentos da Escócia e Lisboa, são apartamentos de um quatro. Como eu viajava muito pare esses países, o que eu gastava em hotel paga pelos apartamentos, que formam um pequeno e modesto patrimônio. O meu apartamento do Brasil fica num conjunto popular em Porto Alegre, já está na família há dezenas de anos. Por ideologia, tenho dificuldades em possuir mais do que necessito. Por ora, todos os meus endereços me servem, e muito. Quanto às viagens, coo viajo muito, acabo com cartões que me levam para as salas VIP, nelas, o lanchinho é de graça. Vale a pena. As primeiras classes são incidentais, normalmente quem me contrata me leva ou traz na classe em que desejarem. Confesso que, muitas vezes, preciso tanto descansar que nem considero um luxo. Mas viajo muito bem, modestamente, na classe econômica.

R: Na sua área de atuação você se tornou uma espécie de celebridade. Você se sente famoso?

JM: Aqui, permita-me falar realmente sério. Quando se tem um muito contato direto com as pessoas de todas as áreas, no meu caso, por exemplo, trabalho diretamente com os autores, que vai do palestrante, ao empreendedor, passando por atores e outros artistas, existe a oportunidade de ver e sentir, bem de perto, os reais anseios, as frustrações, os objetivos de cada um, enfim, tudo aquilo que imaginamos levar à felicidade, ao prazer e, por que não, à infelicidade. Há coisas aí que me preocupam. Entre tantas descobertas, noto algo nos jovens, que me deixa desconfortável: a busca pela fama. De alguma maneira, os jovens são conduzidos a pensar que a maneira de vencer na vida, ou ser alguém, é ser famoso. Questiono isto. O que é realmente a fama? O que ela traz de concreto à vida de quem a desfruta? Essa corrida desenfreada pela fama, e vale dizer, fortuna, faz com que muitos jovens deixem de acreditar nos estudos, no empreendedorismo e em outros meios de conquistar vitórias em suas vidas. A fama é algo que as pessoas perseguem ao longo da História da Humanidade e, talvez, este seja o ponto: a perseguição da fama. Talvez um dos efeitos da fama, seja a sensação de poder que ela sugere, afinal, ao longo da História, a gradação de lideranças foi feita pelo valor do poder que determinada pessoa detinha em seus domínios, não é mesmo? A fama, a meu ver, pode ter efeitos avassaladores em vários sentidos. Pode fazer uma pessoa expandir sua atividade além de fronteiras imaginárias e pode também trazer desafios inimagináveis. Prefiro, toda a vida, o reconhecimento em lugar da fama. Fama, contudo, não é pecado: é um processo de aceitação pela sociedade de algo que está sendo praticado.

R: Bate-bola para terminar?

JM: Vamos lá!

R: Escócia…

JM: É o meu chão de referência. Eu ainda sonho com uma Escócia soberana.

R: Política…

JM: Voto na Escócia. Nos outros países apenas opino.

R: Esquerda ou Direita?

JM: Na Escócia, esquerda. No geral, centro-esquerda.

R: O que é arte?

JM: Definição clássica:  uma das melhores maneiras de o ser humano expressar seus sentimentos e emoções. A arte é o reflexo da Cultura e da História, considerando os valores estéticos da beleza, do equilíbrio e da harmonia.

R: Opinião sobre os protestos no Brasil, como no MASP e Santander, em Porto Alegre.

JM: Muito ruim para o Brasil. Embaraçoso para o povo brasileiro no exterior. Há mil coisas sobre o que protestar. Na época fiquei de cabeça quente com os fundamentalistas, mas depois fico com pena. São vítimas de um sistema.

R: Como lida com que não gosta de você?

JM: Por escolha, não lido com tal. É uma questão de escolha mesmo, nem sempre fácil. Cuido de quem gosta de mim, o que, felizmente, ocupa-me um bom tempo, que leva a não dar para pensar em quem não gosta. Por outro lado, criticar não significa não gostar. Ouço sempre as críticas, elas nos fazem crescer. E, por outro lado ainda, confesso que algumas pessoas me cansam. Como dizem os livros de autoajuda, sugam-nos a energia e aniquilam a nossa capacidade de reação. Acabam sendo verdadeiras destruidoras da nossa saúde e paz interior, adoecem a nossa capacidade emocional e distorcem as nossas sensibilidades. Afasta-me delas em nome da minha saúde física e emocional. A verdade é que ao longo do tempo, e acho normal, passamos a desconhecer muitas pessoas que pensávamos conhecer, e percebemos que vivemos sujeitos às suas exigências, à sua conversa, ao seu comportamento e, especialmente, às suas emoções tóxicas. Essas pessoas não sabem como respeitar e considerar os outros, e utilizam-nos, ou sonham no utilizar, como marionetes do seu mau caráter e alvos de conflitos externos e internos. Elas não vivem e deixam viver e, portanto, impedem o desenvolvimento e crescimento pessoal dos que as rodeiam. Esta gente expurgo logo que as identifico. Seria o meu lado escocês, que não suporta essas coisas?

R: Preconceito.

JM: Uma vergonha, inaceitável nesta época em que vivemos.

R: Religião.

JM: Há quem precise. Aconselho ler Homo Deus de Yuval Noah Harari.

R: Neste seu último livro, o que tem de diferente?

JM: Tudo. Acabei de escrever, então, é como se falasse com o meu leitor hoje. Por ora, o papo é novíssimo. Vale a pena conferir!

R: O que é uma boa história?

JM: A que encanta.

R: E um best-seller?

JM: Um livro que vende bem no seu nicho de mercado.

R: Tem que ser bom para ser publicado por uma grande editora?

JM: Sim. Mas não necessariamente. Uma editora pode ver um potencial em você. Já vi uma menina com cara de anjo, que mal sabia escrever, dar-se bem emprestando a imagem a ghost-writers para que a editora publicasse historinhas de anjos. Tudo é possível.

R: Em 2015 você sofreu um acidente que quase lhe tirou a vida. O que você aprendeu com isso?

JM: Que acidentes acontecem?

R: Por fim, o que você lê? E que ficou da última leitura?

JM: Tudo, até rótulo de garrafa. Aliás, no meu próximo livro, aproveito textos de rótulos para mostrar como se constrói uma história que vende. Da última leitura, ficou a frase: ‘ânimo tem quem conhece e vence o medo’.

R: Quero ser sua autora!

JM: Escreve para o McSill Story Studio!

 

James McSill
James McSill
james@mcsill.com

Um dos consultores de histórias mais bem-sucedidos do mundo, autor, conferencista e filantropo.

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