Storytelling e resiliência | B! Storytelling
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Storytelling e resiliência

storytelling e resiliência

Storytelling e resiliência

O futuro que almejas não é uma história já escrita. Se queres mudar histórias vindouras, muda agora mesmo as de hoje! E isso não é uma frase de efeito para abrir um artigo, é a mais pura verdade, não se trata de uma regra, É A REGRA.

Tenho certeza que, como eu, já paraste para pensar: Por que nos sentimos tristes? Sentimentos tristes, como todas as outras emoções que experimentamos, são uma indicação de que algo está errado em ‘nossa vida presente’. As causas de uma tristeza são incontáveis, mas todas podem ser resumidas numa grande categoria, Problemas Não Resolvidos, parte ‘na vida passada’, ‘parte na vida presente’.

Mas quem não tem problemas não resolvidos? É normal que experimentemos pontos em nossas vidas onde enfrentamos desafios e dificuldades. Muitas vezes, ouvimos os amigos dizer: ‘Sê forte, tu vais superar isso’ ou ‘Precisas ser mais flexível’, mas o que isso realmente significa? Como podemos resolver as nossas aflições em um sentido prático?

Este artigo tem como objetivo analisar o que as histórias têm a ver com resiliência, o que isso significa realmente e por que entender como funcionam as histórias é tão importante para sermos resilientes e sabermos mudá-las. Também, entrando na área dos meus amigos coaches comportamentais, discutirei diferentes tipos de resiliência e, com base no que chamamos ‘story therapy’ fornecerei algumas dicas sobre como podemos desenvolver ainda mais nossa resiliência se soubermos lidar com as nossas histórias.

Então, o que resiliência realmente significa?

No dicionário, resiliência significa elasticidade, usada para que corpos deformados voltem ao estado original ou ainda a capacidade de rápida adaptação e recuperação. Do latim resiliens, a palavra usada para denominar algo que ‘ricocheteava ou pulava de volta’.

Em essência, ser resiliente significa ser capaz de se adaptar e se recuperar quando algo difícil acontece em nossas vidas. É a capacidade de nos recuperarmos depois de um trauma ou de uma experiência dolorosa. Os nossos níveis de resiliência mudarão e se desenvolverão ao longo da nossa vida e, em alguns pontos, descobriremos que não lidamos tão bem com os outros e nos surpreendemos quando temos de administrar uma situação difícil. Em outro sentido, a resiliência é apenas uma das muitas ferramentas psicológicas que implementamos para voltar ao nos equilibrar e a nos sentirmos normais novamente.

Por que isso é importante?

Porque quando estamos numa posição enfraquecida onde nos sentimos como se as coisas estivessem indo de mal a pior, pode ser muito difícil encontrar nosso equilíbrio, ou nadar contra a maré, ou recuperar a nossa estabilidade.

A resiliência é importante, sobretudo, por que nos permite desenvolver mecanismos de proteção contra experiências que podem ser verdadeiramente destrutivas, ‘esmagadoras’, ajuda-nos a manter o rumo, a cabeça fora d’água, durante períodos estressantes. A resiliência protege-nos, por exemplo, contra problemas de saúde mental.

E por que histórias – ou Storytelling, para dar ao artigo um tom modernoso – e a sua estrutura e impacto fazem parte de uma discussão sobre resiliência?

Aqui partilho contigo um relato pessoal.  O meu pai viveu apenas o tempo suficiente para me ver completar a minha graduação, receber um diploma e encontrar trabalho no campo da linguística e escrita criativa. Nos últimos anos da sua vida, o fato de as histórias ficcionais terem sido usadas para penetrar em espaços escuros e difíceis, sobre os quais as pessoas se calavam, o intrigou, talvez porque a ficção contasse a sua história com mais eficácia do que jamais poderia através da palavra falada. O meu pai morria de um tumor incurável. Quando não pudemos falar sobre questões que de forma honesta e dolorosa nos dividiram — como política ou religião, ou os meus planos de viajar após a formatura ou outros tópicos indutores de tensão — pudemos nos conectar através do seu interesse apaixonado pelas peças de teatro e contos que eu escrevia, como uma força curativa do relacionamento. E foi somente através dessas conversas que reconhecíamos e aceitávamos o que nos aproximava e o que nos diferenciava – o meu pai era socialista ateu, eu já nem tanto, era mais um social-democrata agnóstico. Mas o impacto da ‘cura’, do equilíbrio, a gradual aproximação pela admiração do ponto de vista do outro e suas das conquistas aprendi, felizmente, a conhecer o meu pai, os seus motivos e motivações, o mesmo fê-lo ele quanto a mim. Elaborar a nossa própria narrativa de transformação por meio de histórias fictícias que criamos ou admiramos e discutimos pode ser um instrumento poderoso de demonstração de amor e carinho de uns para os outros.

E que histórias ou modelos de histórias preciso criar, admirar ou discutir a fim de mudar a minha realidade para alcançar os benefícios e me tornar mais resiliente?

Das conversas com o meu pai, inferi que a nossa interação por meio de histórias que me tornei mais capaz de gerir o impacto emocional de tensões, dificuldades e traumas na minha vida. No entanto, ano depois, já como um profissional no campo do Storytelling em da Story Therapy descobri que existem diferentes tipos de resiliência que desenvolvemos ao partilharmos histórias ao longo de diferentes pontos em nossas vidas. Listo alguns destes abaixo.

Resiliência Inerente

Essa é a resiliência natural com a qual nascemos. Essa resiliência natural nos protege e nos informa sobre como descobrimos e exploramos o mundo; aprendemos a brincar e também a correr riscos. Esse tipo de resiliência natural ocorre muito em crianças com menos de sete anos (desde que seu desenvolvimento não tenha sido interrompido e elas não tenham sofrido nenhum tipo de trauma). Ao ler com uma criança ou contar-lhe uma história, por exemplo, estamos ensinando-lhe a ser ‘humana’. Quando abrimos um livro e partilhamos com ela a nossa voz e imaginação, esse pequeno ser aprende a ver o mundo através dos olhos de outra pessoa. Vou além e digo que essa criança aprende, então, a sentir o mundo mais profundamente, tornando-se mais consciente de si mesma e dos outros de uma forma que simplesmente, de outra maneira, não poderia experimentar.

Resiliência adaptada

Esse tipo de resiliência ocorre em diferentes pontos das nossas vidas e geralmente é causado por uma experiência difícil ou desafiadora. Ser despedido e sair no dia seguinte para procurar um novo emprego, ou o fim de um relacionamento, e encontrar a força para, com o tempo, reconstruir o nosso senso de confiança para, mais uma vez, encontrar alguém ou algo novo. A resiliência adaptativa é a resiliência que precisa ser aprendida no ato e pode nos dar a capacidade de lidar com o estresse e a dor. Não é incomum ancorar o nosso senso do “porquê” de nossa existência em coisas que são impermanentes: outra pessoa, uma ocupação, um lugar. Eu mesmo, devido a experiências pessoais, passei a identificar esta vida como uma “não-vida”, que reflete um distanciamento e falta de consciência do sagrado. No campo secular, digo que seria o desenvolver de uma atenção plena, que não requer palavras, uma filosofia complexa ou rituais para que tenha um senso de encantamento, de apreciação do Universo. O sagrado, parece-me, está ao nosso redor — nas estrelas que reúnem o céu noturno, no sol que nos aquece, nas chuvas que nos trazem nova vida.  As histórias nos ajudam – a mim e a ti — a ouvir o ar, a sentir o chão sob os nossos pés ou a apenas a apreciar a presença do outro, como mencionei, sem precisar de palavras. As histórias das nossas mágoas tornam-se apenas uma nota; não a música. A experiência que me levou a essa resiliência adaptada foi um acidente quase fatal que sofri em 2015.

Resiliência Aprendida

Esse tipo de resiliência é acumulado ao longo do tempo e aprendemos a ativá-lo através de histórias difíceis do nosso passado. Aprendemos a saber quando usá-lo e usá-lo em momentos de estresse. É por meio dessa resiliência, que aprendemos, desenvolvemos e desenvolvemos nossos mecanismos de gerenciamento e encontramos formas de aproveitar a força que não sabíamos que tínhamos nos momentos em que mais precisamos. Quando uma crise surge, pessoas resilientes são capazes de identificar a solução que levará a um resultado seguro. Em vez de, em situações de perigo, desenvolver a famosa ‘visão de túnel’ em que não percebem detalhes importantes nem aproveitam as oportunidades. Indivíduos resilientes, por outro lado, são capazes de olhar calma e racionalmente para o problema e vislumbrar uma solução bem-sucedida. Costumo dizer que o que quem domina a resiliência aprendida coleciona o que chamo de ‘histórias de soluções’. Ou seja, já comemos o pão que o Diabo amassou, e sobrevivemos. Portanto, podemos sobreviver outra vez! A dica é que podes efetivamente comunicar a tua história de uma forma tal, que o foco, inicialmente, não seja no problema, mas nas histórias de soluções, sobrevivência, vitória; só para, logo depois, seguir com a definição do problema. Em suma, invertes a história, começas da metade para o fim e vais do início à metade. Esse tipo de história mostra que nenhum problema é tão grave que nós, que já passamos por momentos de muita dor e sofrimento, não podemos trabalhar para resolvê-lo.

Enfim, trabalha na sua resiliência resolvendo conflitos gerados por histórias antigas ou atuais. Entendo que é mais fácil falar do que fazer, que ser resiliente ante a adversidade real pode ser difícil, mas começa por resolver histórias pendentes ou tenta estudar a estrutura de uma história. Irás ver que para mudares uma história não tens de mudar a história toda, basta mudar um elemento. Se na história da Cinderela ela não fosse uma donzela, mas um pastor na fazenda da família? Como a princesa que se apaixonou por ele o encontraria? Sem dúvida, ao mudar apenas o gênero de um personagem, uma nova maneira de avançar com a história surge frente aos nossos olhos.

Como mencionei na abertura, o futuro que almejas não é uma história já escrita. Se queres mudar histórias vindouras, muda agora mesmo as de hoje! Observa que nem mencionei as de ontem. O segredo para as de ontem nem é perdoar os outros, mas aprenderes a perdoar a ti mesmo. Se não conseguiste o que querias, ou sentes que cometeste um erro, evita ficar a punir a ti mesmo e tenta lembrar que ninguém é perfeito. Nem tu, nem eu, nem ninguém! Prosseguindo, haverá momentos em todas as nossas vidas em que as pressões aumentam ou em que sentimos dor e traumas serão inevitáveis e, em alguns momentos, nos esforçaremos para lidar com tudo isso e fracassaremos. Assim são as histórias (vê mais sobre isso na Jornada do Herói, por exemplo, esmiuçada nos meus livros da coleção 5 Lições de Storytelling). No entanto, na vida, não há outras opções a não ser aprendermos sobre nós mesmos e percebermos o que podemos e o que não podemos administrar. Para alcançar um grau mínimo de felicidade, é imperativo desenvolver estratégias que nos permitam tornar-nos resilientes, enfrentar essas dificuldades no nosso caminho e confiramos nas nossas habilidades de administrar a nossa passagem por esse planeta. O fato é que, dentro de cada um de nós, há força e coragem que nem sabíamos que tínhamos para lidar com os Problemas Não Resolvidos. A resiliência, ou melhor, cada uma das possíveis histórias de resiliência, forja uma história interna mais forte e poderosa. E trabalhar, pensar e sentir, sem uma história interna forte de escolha e necessidade consciente, leva à decadência e imbecilidade. O que eu não quero para a minha vida, e sei que não queres para a tua.

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Conheça mais sobre James McSill

Post originalmente postado no Linkedin

Thiago Amadigi
thiago@bstorytelling.com.br
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