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Storytelling como habilidade para a liderança

Num contexto de constantes e profundas mudanças, a contação de histórias se tornou uma técnica gerencial poderosa para a prática da liderança e para a modelagem da cultura organizacional.

Um dos maiores desafios da gestão e liderança é como motivar as pessoas. Como promover o alinhamento dos colaboradores em torno da estratégia organizacional e, sobretudo, como gerar o engajamento e compromisso das equipes para o efetivo atingimento das metas da organização. A solução pode ser contar histórias.

Storytelling, ou contação de histórias, é uma tradição social que acompanha a civilização humana desde seus primórdios. Entretanto, como ferramenta de gestão, ela começou a ser mais frequentemente utilizada nas duas últimas décadas. Como narrativa de uma experiência vivida por uma pessoa ou grupo, a história é uma reimaginação impregnada por emoção e detalhes suficientes para provocar a imaginação do ouvinte para “viver” a experiência contada como se fosse real.

Histórias são fenomenais. Elas tem o poder de nos mobilizar, nos moldar, e formar nossas crenças. Uma boa história tem vida própria. Uma grande história muda qualquer coisa. Os seres humanos tem contado histórias desde a idade da pedra. Mas elas permanecem tão novas como sempre. A diferença que nós as compartilhamos por twitter ou facebook enquanto nossos ancestrais a compartilhavam em volta da fogueira.

O papel do líder como contador de histórias

Storytelling é uma importante habilidade da liderança para cumprir sua função de inspirar e motivar pessoas. Nelson Mandela, reconhecido mundialmente por suas habilidades de liderança, costumava contar histórias sobre o período em que ficou preso para influenciar e inspirar os seus seguidores. Como exemplo de líder autentico e transformacional, ele conseguiu remodelar uma nação inteira!

Uma das cinco práticas do líder pelo exemplo, como formulada por Kouzes e Pouzes no best-seller “O Desafio da Liderança”, é animar os corações das pessoas. O líder extraordinário é aquele que fala para os corações dos seguidores e não para as mentes. Ele contagia seus colaboradores por meio da emoção. Ao tocar o coração das pessoas, ele as inspira e as motiva para a ação. E nada é mais poderoso para provocar a emoção nas pessoas do que uma boa história.

Os verdadeiros líderes utilizam a técnica da narração de histórias como um meio para articular a visão compartilhada entre os colaboradores, fornecendo direção e inspirando o comprometimento para a ação.

Algumas empresas tem institucionalizado a storytelling como prática gerencial, fazendo seu uso em diversas atividades tais como comunicação corporativa, liderança, propaganda e gestão de pessoas. Na Nike, por exemplo, todos os altos executivos são designados “contadores de histórias corporativas”. Eles contam a história de como o cofundador Bill Bowerman despejou borracha no aparelho de waffle de sua esposa para criar um tênis de corrida melhor, inaugurando uma trajetória de inovação na cultura da empresa.

Outro exemplo é o da Procter & Gamble. A empresa contratou diretores de Hollywood para ensinar técnicas de storytelling para seus executivos.

Moldando a cultura por meio de histórias e metáforas

A storytelling tem sido cada vez mais frequentemente aplicada ao ambiente empresarial. Essa técnica é utilizada, entre outras aplicações empresariais, como ferramenta para moldar as crenças e valores e construir ou remodelar a cultura organizacional. Afinal, o passado da empresa se une ao seu presente através da sua história ao longo do tempo.

A cultura é uma das forças mais poderosas em uma organização. Entretanto, em muitas organizações, ela é invisível, intangível, e quase tem sua vida própria. Como meio de influenciar a criação de um produto ou ideia, ela demonstra valor e importância. Igualmente, uma história pode servir para demonstrar o que é importante e valioso para a organização. Afinal, histórias definem culturas e culturas definem as organizações.

A Disney, por exemplo, uma empresa especializada em contar histórias, vem utilizando eficazmente a técnica da narrativa em diversas ações de endomarketing, instilando efetivamente os seus valores organizacionais nos colaboradores.

Segundo uma pesquisa da Consultoria Booz & Company com 2200 executivos globais, apenas 54% das empresas são competentes para efetivar uma mudança organizacional sustentável. Entre as constatações, a pesquisa apontou que 84% acreditam que a cultura é crítica para o sucesso dos negócios; 51% acreditam que sua cultura necessita de uma grande revisão; e somente 35% consideram que sua cultura é eficazmente gerenciada; Outra constatação revelou os principais motivos por que as mudanças não são efetivamente implementadas nas empresas: Resistência dos empregados a mudança; Ceticismo devido a fracassos anteriores; Falta de envolvimento das equipes nos esforços da mudança; Falta de compreensão dos motivos e razões da mudança; e Capacidades e competências críticas não estão alocadas para sustentar a mudança.

O primeiro passo para modelar a cultura da empresa é envolver e engajar seus colaboradores. Em vez de criar um novo cartaz com palavras inteligentes e inspiradoras e pendurar cópias pelos corredores, devemos descobrir o que os colaboradores pensam e querem. O que eles pensam de sua cultura atual? Quais os prós e contras da empresa? Quais traços culturais são compartilhados? Enfim, “como se fazem as coisas por aqui”?.

O maior desafio de um líder é promover uma mudança cultural. Os líderes e gestores devem compreender o tipo de cultura e planejar o que e como irão construir e fortalecer as crenças e valores que distinguem a sua organização de modo positivo. Por meio do envolvimento dos líderes e das equipes, novas metas culturais poderão ser compartilhadas e realizadas, tais como treinamentos, ações de comunicação interna e realização de eventos e rituais que promovam as bases para a sustentação do desenvolvimento ou mudança cultural. É nesse contexto, que entra a Storytelling.

Ela é a ferramenta estratégica eficaz para o engajamento do corpo gerencial e colaboradores para a construção, fortalecimento ou mudança para uma cultura vencedora. Ao identificar, projetar e compartilhar histórias, mitos, situações e comportamentos que fazem parte da linha de tempo e evolução da empresa estamos facilitando o engajamento e alinhamento de crenças, normas, valores e direção. Ao se criar uma identidade e uma razão para pertencimento entre os colaboradores, surgirá um senso de lealdade e orgulho. E isso proverá consistência e alinhamento que poderão servir de pilares para o crescimento e sucesso organizacional.

O impacto do storytelling na motivação das equipes

Como engajar equipes é um dos maiores desafios dos líderes e gestores. Uma das palavras mais buscadas no Google é “motivação”. Um estudo feito nos EUA indicou que 70% dos colaboradores sentem-se desmotivados no trabalho e 75% dizem que deixaram o trabalho por causa de seus chefes – maus gestores. No Brasil, apenas 37% dos trabalhadores se sentem motivados.

Muitos líderes já perceberam que a narração de histórias possui alto impacto na modelagem, ou mesmo remodelagem, da cultura organizacional. No contexto atual, aonde temos que lidar com mudanças radicais e transformadoras na organização, muitas vezes de árdua execução, as histórias podem facilitar o engajamento e entusiasmo imprescindíveis para a desafiadora tarefa de fazer a mudança. As histórias podem fornecer clareza e entendimento, além de enfatizar os temas, rituais e narrativas organizacionais.

Como temos ensinado em nossos cursos de extensão universitária e workshops, juntamente com o professor Ricardo Fonseca, especialista no tema, estudos recentes no campo da neurociência explicam como a storytelling afeta o cérebro das pessoas. A história ativa partes no cérebro que permite ao ouvinte modificar a história conforme suas próprias ideias e experiências graças a um processo chamado acoplamento neural. Como um espelho, os ouvintes experimentam atividades neurais semelhantes ao apresentador. O cérebro libera dopamina no sistema nervoso quando o indivíduo experimenta uma situação emocionalmente desafiadora, tornando mais fácil a memorização do evento com maior acuracidade. O córtex também é afetado. Uma narrativa bem contada pode engajar várias outras áreas adicionais, incluído o córtex motor, o córtex sensorial e o córtex frontal.

Dados e informação excitam a mente, mas não conquistam corações

Atualmente, o big data e as inúmeras informações de mercado dirigem as organizações. Porém, muitas vezes eles são frios e eminentemente racionais. Embora forneçam objetividade e impessoalidade necessárias para a interpretação e utilização estratégica, esses dados e informações falam para a mente e não servem para os corações. Assim, ao agregar uma história emocionante, o líder pode contagiar e influenciar mais efetivamente para a ação e gerar energia e entusiasmo na equipe.

Apenas 5% das pessoas se lembram dos gráficos e estatísticas apresentados em uma reunião, enquanto 63% se lembram facilmente de uma história contada. Somos constantemente bombardeados com informações. As mídias sociais, artigos, blogs, webinars, aplicativos de notícias – provocam uma overdose de informações. Em meio a essa poluição, a storytelling é uma maneira eficaz para penetrar nessa desordem e sobressair-se no topo das informações. Assim, com sua inclusão na construção de narrativas e histórias, esses dados e informações ganham vida. Contribuem muito mais para a diminuição da incerteza e ambiguidade e garantem maior engajamento para a ação. Histórias agregam relevância e proveem contexto e significado. Elas também fazem as pessoas se lembrar de algo mais facilmente.

Histórias positivas tem a capacidade inerente de engajar emoções pois elas se referem as pessoas, coisas e situações com as quais os colaboradores podem se identificar e se orgulhar. Pessoas se ligam a histórias porque suas vidas são histórias.

Como os líderes utilizam o storytelling

Líderes empresariais são grandes contadores de histórias. Por exemplo, o ex-presidente da GE, Jack Welch, conta como sua mãe incutiu bastante amor e autoconfiança nele para superar o fato de que ele era o garoto mais baixinho em sua classe e tinha uma gagueira grave. Jeff Bezos, fundador da Amazon.com, muitas vezes conta a história de como criou o primeiro escritório da empresa em uma garagem convertida. Criar uma cultura de excelência ou promover uma mudança cultural sustentável não é tarefa fácil. Ela exige empenho, comprometimento e abordagem apropriada da liderança. O brasileiro Carlos Ghosn, CEO da Renault-Nissan, que é referenciado como um líder transformacional, salvou a Nissan da falência em 1999 e a transformou na 4ª maior montadora do mundo.

Um estudo internacional recente revelou que inúmeros gestores adotam a contação de histórias no seu o dia a dia para motivar e inspirar a mudança cultural. Eles consideram a storytelling como uma habilidade inerente à função do líder, “uma parte integral do que fazem”. Vários gerentes entrevistados responderam que “histórias conectam as pessoas”. Para eles, histórias são a maneira mais efetiva de se conectar com as pessoas e construir o tipo de clima onde os colaboradores sentem-se confortáveis e receptivos para internalizar os objetivos organizacionais. “Histórias emocionam e são memoráveis, elas humanizam a organização”, disse um gerente. “A contação de histórias é absolutamente crítica para a mudança cultural. Ela ajuda as pessoas a aprender lições. As pessoas facilmente a ouvem, a interpretam e a armazenam de uma maneira melhor”, disse outro entrevistado.

Como habilidade de comunicação e liderança, a storytelling pode ser aprendida. Além de compreender os conceitos, técnicas e abordagens que envolvem uma narrativa e as estratégias para torna-la mais eficaz, os líderes contadores de histórias costumam planejar e formatar a narrativa, assim como exercitar constantemente sua prática. Cada situação exige um tema específico para construção da narrativa, bem como os detalhes que serão enfatizados e o tratamento emocional que será abordado.

Escolher ou estruturar uma metodologia que permita facilitar a construção de histórias dentro do ambiente corporativo, criando parâmetros e caminhos para conexão entre cenário e cultura organizacional, perfis e arquétipos, trama e missão, entre outros aspectos, é essencial para contar uma boa história.

Para isso, existem princípios, técnicas e habilidades requeridas. Uma boa história é interativa, visual, conecta-se emocionalmente com o ouvinte e usa diálogos realistas ao introduzir personagens com os quais o interlocutor se identifique. Ao utilizar palavras, símbolos ou recursos audiovisuais para transmitir um conteúdo e compartilhar conhecimento, a arte de contar histórias acaba aproximando as pessoas da empresa, pois o ser humano estabelece ligações interpessoais e conexões emocionais através de uma narrativa.

Você deve estar se perguntando: como implementar a storytelling no ambiente empresarial?

Sob a perspectiva da aprendizagem e desenvolvimento, a implementação da storytelling exige a construção da conscientização junto aos gerentes da arte e da ciência de contar histórias. Uma vez consciente do que contar histórias significa, e do impacto que pode vir dessa habilidade, o próximo passo é a construção de um repertório e currículo que demonstre a aplicação estratégica da storytelling no que se refere a: treinamento, definição de expectativas e movimento direcional.

A segunda recomendação é com o foco sobre os líderes e a organização. A primeira ação, uma vez que os líderes aprenderam as habilidades de contar histórias, requer que os líderes apliquem as habilidades durante treinamentos, coaching e reuniões com a equipe. A segunda ação que é altamente recomendável. exige que a organização crie uma plataforma para ampla utilização da contação e capturação de histórias ao longos das áreas e departamentos. A terceira ação é garantir que os líderes recém-contratados sejam especialistas em contação de histórias, incluindo-a como uma habilidade necessária para aquisição de talentos. A quarta e última ação requer que a organização garanta que seus líderes estejam sendo recompensados pela efetiva aplicação dessa habilidade na mudança organizacional.

Para serem inovadoras e engenhosas, as organizações devem tentar esta nova abordagem para conectar os dados e informações com seu público, principalmente os colaboradores. A única maneira de fazer essa mudança é através da storytelling. Será a narração de histórias que irá criar efetivamente a mudança cultural que vai perdurar.

Via Administradores

 

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